quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Morcego Puro-Sangue

Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” o
personagem chega enfim, ao seu devido lugar

A reinvenção de Batman como série cinematográfica pelas mãos habilidosas do cineasta Chris Nolan dá seu passo mais firme e audacioso com “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight / 2008 / EUA – 142 min).
Depois dos altos e baixos enfrentados pelo personagem nos últimos 20 anos, sob a ótica dos diretores Tim Burton e Joel Shumacher, e de ter sua origem reinterpretada em “Batman Begins” (2005) o mais novo longa-metragem do Homem Morcego – criado para os gibis, na distante década de 30 – enfim coloca as coisas em seus devidos lugares.
A produção acerta na mosca no teor – mais sombrio do que nunca – na escolha do elenco, e na construção de um roteiro que enfatiza as melhores qualidades do Bat-universo como foi originalmente concebido.
A característica mais marcante – e paradoxalmente – mais surpreendente de “O Cavaleiro das Trevas” é a coragem em desnudar Batman de todos os artifícios já utilizados para facilitar sua abordagem em carne e osso.
É esse Batman puro-sangue que causa surpresa, porque abandona de vez as escolhas óbvias e os contornos infantis que marcavam as adaptações anteriores (no cinema e na TV) – “sujando” a mitologia do verdadeiro justiceiro de Gothan City.
Dessa vez mergulhamos de cabeça num mundo sombrio, maduro e radical. Uma Gotham realista – inspirada nas megalópoles de verdade – imersa na corrupção e na violência, onde criminosos e policiais de moral duvidosa convivem pacificamente, compartilhando os lucros do tráfico de drogas. Um Coringa homicida, que sente prazer com o caos, cai como uma bomba na trama, e provoca repulsa e ódio, sem deixar espaço para o tom humorístico ou para explicações que possam humanizar o personagem. No papel para o qual Heath Ledger parece ter nascido, só cabe o mal sem sentido, que se regozija com a promoção da desordem social.
Em “Cavaleiro das Trevas” Batman é o anti-herói que vive a margem, entre os que o apóiam em sua luta sem volta por justiça, e os que o temem como força que às vezes pisa nas leis para colocar os delinqüentes na cadeia. O conflito moral está sempre presente, seja na forma como a população se relaciona com seu vigilante, ou no papel desempenhado pelo promotor público Harvey Dent, como Cavaleiro Branco, agente da lei incorruptível, que ao lado do Comissário Gordon, atua como parceiro – e talvez herdeiro – do Homem Morcego na tarefa de colocar Gothan nos trilhos.
Por ter sido moldado com as formas de um bom filme policial, e não como mera aventura baseada em quadrinhos “Batman – O Cavaleiro das Trevas” se coloca um degrau acima das outras produções que vêm inundando as salas de cinema. O tom sério e o conteúdo adulto aproximam um dos personagens mais populares da cultura pop, de filmes como “Os Intocáveis” (1987) e essa é a primeira vez que isso acontece de forma tão bem sucedida. Uma herança de qualidade que “O Cavaleiro das Trevas” deixa às gerações futuras, e que certamente tentará ser capturada por outros cineastas – de olho nos recordes de bilheteria e nos elogios quase unânimes que o melhor filme do Batman tem colecionado mundo a fora.
(9.5) TRAILER

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